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quinta-feira, 21 de maio de 2015

Os prazeres e os dias

Quando Clara me disse que queria fazer ballet, minha primeira reação foi entrar em pânico.

Tinha prometido pra mim mesma que não seria essa mãe. A mãe que empurra para trocentas atividades, sobrecarregando a criança. A mãe que cria expectativas e vai empurrando - vai ser bailarina! vai ser nadadora! vai ser gênio! Eu tinha feito a promessa para mim, e acho que é a promessa mais difícil que uma mãe possa fazer, modéstia à parte, de que Clara seria Clara, e que eu estaria sempre aberta para descobrir quem ela é.

E aí, nesse meio, no meio de ser quem a Clara é, no meio de respeitar a promessa que eu fiz e renovo a cada dia, veio o pedido - eu quero fazer ballet! E não é que ela quer, mesmo?

Eu achava que agora, em maio, Ana Clara já teria visto enferrujar a mágica do ballet. Como todas as coisas, por mais que eu tenha pesquisado e encontrado quase que instintivamente um lugar que interpreta isso, para essa idade, como um processo lúdico e não como um molde engessante e limitante para profissionais do futuro, achava que depois de quatro meses de ballet a repetição constante, as horas empregadas, o trabalho de colocar e tirar a roupa já teriam descolorido o sonho de "ser bailarina" e ela iria preferir ficar em casa com as bonecas.

Ledo engano. Tanto quanto o foi com a escola. "Ah, deixa ela ir, quando ela pedir pra ficar em casa, eu tiro. Ano que vem ela volta". Clara não vai pedir pra ficar em casa. Eu sei que não. Eu acho que já sabia quando ela pediu pra ir, mas foi difícil lidar com a descida da torre, com o fato de não poder cercá-la mais na nossa bolha de afeto.

E a cada dia eu me surpreendo mais.
A cada dia Ana Clara me convida a conhecê-la, e como é inesgotavelmente enriquecedor nunca negar esse convite.
Descobri-la disposta e engajada, autoritária e amorosa. Sabê-la amante das pessoas muito mais que das bonecas ou dos brinquedos, da TV ou do sossego.
Como foi iluminado o dia em que eu me senti pronta para este novo ser. E como são iluminados todos os dias com ela e com o Lucas. E como será incrível descobrir também a ele, meu galeguinho boa praça, risonho e ao mesmo tempo exigente. Como Lucas e Clara se parecem nesse aspecto: agridoces. Dispostos sempre a um carinho, daqui um minuto chorando sentidos porque não conseguem montar o brinquedo...rs...

Vê-los crescer é a parte mais desafiante da minha vida.
Porque me lembrou das certezas que eu não tenho e continuo não querendo.
Porque me fez assumir o meu lado mais aberto, mais libertário e mais afável.
Porque me faz sentir que o que há é amor, amor e só. E para além disso são nossos dias, costurados como a mortalha adiada de Ulisses: coser e descoser, para nunca estar pronto. Que nunca estejamos prontos...

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